terça-feira, 11 de agosto de 2020

O rap, a palavra e a escuta: aprendizados periféricos em um mundo desigual - Daniel Péricles Arruda (Vulgo Elemento)

 O rap, a palavra e a escuta: aprendizados periféricos em um mundo desigual

Daniel Péricles Arruda (Vulgo Elemento) 

Quando conheci a cultura hip-hop, me conheci. Quando comecei a cantar rap (rhythm and poetry/ritmo e poesia), me desenvolvi. E vivo assim, entre o rap, a palavra e a escuta. Uma tríade potente para refletir os aprendizados periféricos em um mundo desigual. Certo de que não é uma tarefa fácil falar sobre esse tema, mas o objetivo aqui é, poeticamente, expressar algumas vivências, lições e certos sentimentos que floresceram ao longo de anos de dedicação à cultura hip-hop, em especial, ao rap.

Vejam, sinto que é importante dizer que não sou um professor que canta rap; sou um rapper que decidiu construir um diálogo entre esses dois campos do conhecimento: a universidade e a rua... Não me sinto bem, sendo uma coisa só. Para mim, é triste ser uma ilha, mesmo que ela seja paradisíaca. Por isso, prefiro a pluralidade, que me faz sentir sujeito de desejo... E essa arte, em especial, é um caminho que venho construindo para cuidar da minha humanidade.

O rap, também foi, para mim, uma revolução por meio das palavras. O rap entrou na minha casa e alcançou a minha consciência. O rap me ganhou pelos ouvidos. O rap foi o meu primeiro “psicanalista”; com ele, apreendi a construir e a escutar as minhas palavras. Na adolescência, enquanto meu pai estava viajando a trabalho, no trecho, eu buscava no rap um pouco de colo: deitado na cama, chorando, com o fone de ouvido, até dormir mais tranquilo.

Quando acabava de escutar um rap, me sentia alimentado, forte, tipo: “Atitude, mano! Atitude, mina!”. Eu escutava a música e pensava: “Nossa, tem tudo a ver! Tudo a ver!”. E, de fato, para muitos jovens periféricos, o rap é uma forma de alimento, que nutre os sentidos, fortalece a existência e potencializa as ações. Eu fui percebendo que ouvir rap era muito mais do que ouvir uma música; era estar em uma aula musicada, que respeitava a minha cor, o meu cabelo, ou seja, o meu modo de ser.

Em diversos contextos, como na escola, na família e no trabalho, é comum ouvir: “A juventude não quer escutar”. Penso que, talvez, o problema não esteja na escuta, mas na qualidade do discurso e no modo como se fala. O rap fala diretamente com muitos jovens, usando a rima, o jogo de palavras, com refrãos que ficam cravados, ou com narrativas que proporcionam, de fato, a educação dos afetos.

O rap, por meio da palavra, segue pelo caminho da escuta para produzir subjetividades. O rap faz a palavra dançar, por isso é ritmo. Consequentemente, a palavra dançante subverte a ordem e a imaginação; por isso é poesia. Nessa trama, sem a escuta, o rap e a palavra ficam em questão. Refiro-me àquela escuta no sentido de não ter o ouvido como único canal de audição. Isto é, a escuta voltada para a leitura do corpo, da desobediência. Escutar não somente o ritmo das palavras, mas também do corpo poético e do mundo que o envolve.

Esses são alguns elementos que servem de base para a experiência periférica com o outro e com a vida cotidiana. Logo, é possível identificar aprendizados essenciais, como a sobrevivência, a humildade, a solidariedade, a desmistificação de que os sujeitos periféricos não são perigosos ou incapazes, o respeito, o diálogo. Esse debate é profundo. Mas, em particular, o rap me ensinou a decodificar as desigualdades, me ensinou a diferença entre teoria e prática, me ensinou que tenho o direito de reivindicar a vida, me ensinou que periferia não é somente uma condição geográfica e social, e sim um sentimento, e pulsante.

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Texto apresentado na live do dia 08/08/20. Clique AQUI para assistir.

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