sexta-feira, 5 de julho de 2024

A transformação da lagarta em borboleta: poéticas sobre o sofrimento psíquico-acadêmico - Daniel Péricles Arruda (Vulgo Elemento)

 

A transformação da lagarta em borboleta:

poéticas sobre o sofrimento psíquico-acadêmico[1]

 

Daniel Péricles Arruda (Vulgo Elemento)[2]

 


O objetivo de ingressar na Universidade é a realidade de muitas pessoas; graduar-se em determinada área; dar sequência aos estudos e pesquisas; continuar se desenvolvendo enquanto sujeito; até mesmo, o ato significativo de ser o/a primeiro/a da família, da geração, ou da comunidade, a obter um diploma universitário e/ou seguir a carreira universitária. Nesse horizonte, a trajetória acadêmica me faz associá-la às transformações da lagarta em borboleta; aos múltiplos atravessamentos das transformações do/a estudante em profissional. Sendo que, para alguns/algumas, pode ser uma experiência saudável e primorosa. Porém, para outros/as, não.

O ingresso na Universidade não é tudo. Para muitos/as estudantes, é uma relação entre conquistas e frustrações, prazeres e aflições, superações e desânimos, realizações e conflitos, confirmações e dúvidas, parcerias e isolamentos. Por isso, é preciso levar em conta as condições de permanência; saída para a atuação profissional; retorno ou continuidade, por meio de participação em núcleos de estudos e atividades de extensão; e de ingresso em cursos de aprimoramento, especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado e livre-docência. Considerando também que os/as estudantes possuem outras questões particulares que, comumente, fogem ao âmbito da relação ensino e aprendizado, porque ocuparam e/ou ocupam outras posições em suas vidas.

No contexto educacional acadêmico, tanto na modalidade particular quanto pública – considerando as suas especificidades institucionais, pedagógicas, culturais e territoriais – é comum encontrar narrativas sobre o adoecimento de estudantes, que envolve, por exemplo, ansiedade; angústia; depressão; insônia; cansaço extremo; estresse; pânico; fobia; medo; irritabilidade; delírio; alucinação; baixa autoestima; memórias indesejáveis, sentimento de culpa,  incapacidade ou inferioridade; sentimento de não pertencimento; automutilação; automedicação; ideação suicida; e o próprio suicídio, seja a morte física ou simbólica; e demais aspectos acerca de somatizações e psicossomatizações.

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Além de outras questões observadas em diversos/as estudantes ao longo da minha trajetória docente, como consequência de traumas vivenciados na educação infantil, no ensino fundamental ou no ensino médio; importantes incômodos e produção de sintomas no contato com determinados temas estudados, inclusive por meio da transferência e identificação; traumas vivenciados durante a formação acadêmica; insatisfação em não obter respostas satisfatórias a problemas, posto que, muitas vezes, as soluções são de alcance de resolubilidade da instituição, ou dos demais envolvidos; comunicações encaminhadas e não respondidas (a não resposta é uma resposta); dificuldade para acompanhar e compreender os conteúdos teóricos em razão da expressiva quantidade de textos, disciplinas e demais atividades; receber tratamento desigual ou hostil na relação grupal; não ter o reconhecimento dos outros; adversidades de conciliar trabalho e cuidado dos filhos, ou familiares, com os estudos; desafios de locomoção até a instituição; impasses na adaptação, ao mudar-se de cidade e ficar distante dos familiares, amigos e rede de apoio; escassez de recursos materiais em casa ou na instituição, como computadores, local adequado de estudo e acesso à internet; limitações financeiras; alimentação inadequada; redução do apetite; não conseguir apresentar trabalhos acadêmicos, tampouco escrevê-los como gostaria (os chamados “bloqueios” ou “travas”); busca pelo perfeccionismo; disputa por afirmação de conceitos e ideias; relação desgastante e/ou solitária, quando em processo de orientação de trabalhos finais, e ser comum escutar a seguinte frase: “Eu não sou orientado/a!”; insegurança para concluir o curso em razão dos vínculos afetivos construídos no decorrer da formação e dos desafios de inserção profissional, sendo estratégica a permanência do vínculo institucional, principalmente, em atividade remunerada (bolsa de estudos); sentir-se exposto ou desqualificado em bancas (o que chamo de “bancas coloniais”); abandono, vontade de desistir ou trancar, temporariamente, o curso; dificuldade de abrir mão da falta perante a realização do desejo; dificuldade para tomar decisões; dentre outros diversos exemplos a partir dos aspectos estruturais e conjunturais no que diz respeito às relações étnico-raciais, relações de gênero e orientação/expressão sexual, classes sociais, religiosidades, posições políticas, aos contrastes culturais, aspectos geracionais e ao acompanhamento de pessoas com deficiência e imigrantes, dentre outras exemplificações.

Essa realidade envolve não somente os/as estudantes, mas também os/as docentes e demais profissionais que participam do contexto universitário. Porém, nesse momento, com foco no sofrimento dos/as estudantes, emergem algumas indagações: O que o sofrimento tem a nos dizer? O que se nomeia como sofrimento? Como apreender essas questões considerando a bagagem singular dos/as estudantes construída antes de seu ingresso na Universidade? Como identificar as tensões e determinados traços que comprometem a saúde psíquica na perspectiva da prevenção, do manejo e dos devidos encaminhamentos?

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Em minhas reflexões, associo o respectivo tema ao processo de transformação da lagarta em borboleta, também conhecido como metamorfose – termo de origem grega: meta (mudança, transformação, além) e morfose (forma, aparência, aspecto) – o qual é constituído pelo ciclo que compreende: ovo, larva (lagarta), pupa (crisálida, casulo), até se tornar borboleta.

O ovo é depositado pela borboleta adulta nas folhas de plantas. Após alguns dias, a larva eclode do ovo, já como lagarta, e se alimenta intensamente, por vezes, iniciando da própria folha em que o ovo estava; assim obtém energia para o crescimento e continuar o seu desenvolvimento.

A lagarta, em seu processo, passa por mudanças de pele, e, depois de alguns meses, de acordo com a espécie, começa a fase da pupa, ou seja, utiliza-se dos fios para produzir o casulo, reclusa e sozinha; em sua segunda gestação, preparando-se para o seu segundo parto, dali a alguns dias ou semanas. É o momento em que forma o corpo, as asas e antenas. E, finalmente, rompe o casulo, apresentando-se como borboleta, para experimentar o seu primeiro voo e iniciar outro ciclo. Há borboletas que conseguem viver por alguns dias, outras, por alguns meses; isso conforme suas categorizações e condições socioambientais.

Em síntese, o “fim” da lagarta faz nascer a borboleta. A lagarta, para voar, precisa abrir mão de sua condição, para deixar de ser o que é, e realizar o seu desejo, sua meta. Entretanto, o ato de voar não é simples e nem sempre é visto como sinal de prazer e liberdade. Lagarta que não faz o seu casulo, não vira borboleta. Assim como a borboleta que não deposita ovo não permite que a lagarta venha a nascer. Veja quanto trabalho e energia são investidos e como as aparências dos processos não se definem em si, uma vez que a borboleta não nasce como tal, mas é resultado de um ciclo.

Toda borboleta, portanto, um dia foi lagarta, mas nem toda lagarta conseguirá ser borboleta. O ciclo exposto ainda envolve a transformação da borboleta em lagarta, porque borboleta também morre, e são importantes essas ações para a manutenção e preservação de sua espécie e para o enriquecimento da biodiversidade. Borboletas, juntas, formam o coletivo nomeado panapaná.

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Toda borboleta tem registrada, em seu passado, a experiência de ter rastejado e usado seus pelos e espinhos para se proteger dos predadores que não sentem culpa, e sim prazer em devorar a sua presa. Mas será que a borboleta sabe que um dia foi lagarta? Ou esse registro está adormecido em seu inconsciente? Geralmente, a borboleta tem valor estético positivo e de aceitação que a sociedade lhe atribui, diferentemente de quando era lagarta. Quer dizer, muitos, da lagarta, têm medo, nojo, por ser sinônimo de perigo, aflição, ameaça. Da borboleta, sentem admiração e encantamento; como sinal de alegria, sorte, esperança. A transição de lagarta para borboleta não é independente, pois precisa da natureza. Por ser vulnerável, preserva-se para não ser acometida pelas ofensivas dos predadores, como formigas, aranhas, sapos, pássaros e, inclusive, os seres humanos. Nenhuma borboleta é igual a outra. Cada uma tem as suas próprias cores, experiências e demais traços específicos. Mesmo as borboletas e mariposas são parecidas, mas não iguais!

E assim parece ser a experiência universitária, a metamorfose acadêmica, e seus múltiplos processos e ciclos, que nem sempre correspondem às expectativas lineares, formais e culturais, próprias ou externas, de travessia, pois cada sujeito é único e vivencia essa realidade conforme suas condições, sua linguagem e seu tempo. Ademais, as pessoas não chegam vazias de conhecimento à Universidade – assim como na clínica psicanalítica – porque passaram por outras trajetórias, romperam outros casulos, podem chegar “encasuladas”, perceptíveis em suas histórias de vida, saberes, ambivalências e dores, podem chegar como borboletas e terem suas asas cortadas.

As instituições de ensino também podem ser casulos, devido ao ambiente transformador, protetivo, assim como pelo aspecto controlador, opressivo. O que deve ser discutido e avaliado no processo de formação universitária, pois o adoecimento psíquico-acadêmico pode matar.

Ser lagarta é uma possibilidade. Você não precisa ser borboleta. Lagarta e borboleta são dois tempos distintos e que se comunicam. Não se pode atribuir valor moral, pois cada uma tem a sua importância. Por isso, a Universidade deve oferecer espaço para as duas, porque ambas são relevantes, independentemente do que são e desejam ser.

Portando, se faz urgente legitimar práticas educacionais de cuidado do outro, cuidado mútuo, voltadas às mudanças físicas e subjetivas, às bases éticas; que se atentem às intempéries da natureza, aos ataques dos predadores, ao tempo de cada um. Transformar o sofrimento em palavras para escutá-lo, subvertê-lo, bem como considerar o que está oculto; ter atenção aos detalhes, aos silêncios, aos cartazes fixados nas paredes, às palavras. Refletir sobre o que é próprio e o que se produz no encontro com o outro, visto que o sofrimento nunca é o mesmo para todos/as, mas o sinal importante de uma turbulência durante o voo da borboleta ou de um tremor de terra sentido pela lagarta. O sofrimento é um indicativo de que algo não está bem, de que o desejo se encontra ameaçado. Sinal de que o psiquismo está reagindo contra alguma investida.

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Uma vez que o sofrimento psíquico-acadêmico fala de muitas ordens, e pode, inclusive, ser emergente no âmbito universitário, mas corresponder a outras dimensões da vida e requer interpretações, indagar e indagar-se, até para descobrir o que não é adoecimento propriamente dito, mas, talvez, sintomas, a ausência de escuta, ou manifestações do processo de amadurecimento e do modo de viver. Universidades são borboletários. Assim, esse sofrimento, quando mal interpretado, ou não validado, pode quebrar o ovo, machucar a lagarta, fazer sucumbir a pupa ou ferir a borboleta!

 



[1] Como citar este texto: ARRUDA, Daniel Péricles. (Vulgo Elemento). A transformação da lagarta em borboleta: poéticas sobre o sofrimento psíquico-acadêmico. Brasil. São Paulo, p. 1-5, 2024. Publicado em: 05 de julho de 2024. Disponível em: https://www.vulgoelemento.com.br/2024/07/a-transformacao-da-lagarta-em-borboleta.html.

[2] Professor do Centro de Desenvolvimento do Ensino Superior em Saúde (CEDESS) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), campus São Paulo. Integrante do Núcleo de Estudos em Filosofia e Psicanálise (NEFIPS), da UNIFESP, campus Baixada Santista. Pós-doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); doutor em Serviço Social pela PUC-SP e mestre em Serviço Social (bolsista do Ford Foundation International Fellowships Program, turma de 2010) pela mesma instituição. Tem especialização Multiprofissional em Saúde Mental e Psiquiatria pela Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (EEP/HCFM/USP) e em Arte-Educação pelo Centro Universitário Senac. Graduado em Serviço Social pela PUC Minas. Psicanalista pelo Instituto Langage. Supervisor institucional. Arte-educa(a)dor, rapper e poeta conhecido como Vulgo Elemento. E-mail: pericles.daniel@unifesp.brhttps://linktr.ee/vulgoelemento.

 

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